Minhas Memórias (Betinha)

 Me converti na minha adolescência, e logo após, não me lembro quanto tempo depois, passei a sentir uma urgência em evangelizar e algum tempo mais tarde, veio o desejo de ser missionária, tinha muita vontade de ser, mas não sabia como, até que um dia alguém chegou na minha casa e me trouxe um livro emprestado para eu ler, era o livro “Pode Falar Senhor Estou Ouvindo” de Loren Cunningham, fundador da JOCUM. Aquele livro fez arder ainda mais a chama que queimava em meu coração, as histórias de missões eram impressionantes eu passei a desejar isso pra minha vida.

Em 1990, no ano que eu iria completar 20 anos, uma equipe da JOCUM de Santa Catarina veio trabalhar por um mês na minha igreja, eu pedi a uma das moças que quando chegasse lá de volta a base dela, me enviasse mais informações. Ela então pediu a base que me enviasse, mas em vez de informações eles me enviaram um formulário para eu fazer a ETED, escola essa que é a porta para o ingresso nesta missão. Bom, nem sei como, resolvi preencher este formulário, e ali pedia para o meu pastor também preencher um, e um amigo também. Entreguei ao meu pastor e a uma irmã da igreja, eles preencheram e enviaram, eu não lembro muita coisa, mas lembro que nunca pedi ao meu pastor se a igreja iria me sustentar se eu fosse para missões, também não pedi a ninguém, eu sabia que de alguma forma se fosse da vontade de Deus que eu fosse para missões, Ele abriria as portas.

Um dia enquanto ainda aguardava a resposta da Missão, eu estava em uma reunião de oração de manhã na minha igreja. Orávamos todos os dias de manhã, não me lembro se era das 5 às 6 ou das 6 às 7. Num daqueles dias estava na igreja somente eu, meu pastor e o seminarista da igreja. Cada um de nós em um canto orando, até que meu pastor nos chamou para conversar, ele disse que enquanto orava ele sentiu muito forte que se eu fosse para missões a igreja deveria fazer alguma coisa. O seminarista na hora concordou, “claro se você for, nós vamos te sustentar”, disse ele. Fiquei muito feliz, eu não tinha feito nenhum pedido sobre finanças e agora eu via Deus direcionando meu pastor a isso. Vi como uma confirmação de Deus que realmente Ele me queria em missões. Uma outra confirmação que pedi a Deus era que a missão me aceitasse, eu me lembro de ter lido um livro onde o missionário foi rejeitado pela organização missionária que ele aplicou, mais tarde Deus o chamou novamente e ele respondeu que já tinha tentado ir para missões, mas foi rejeitado, então Deus disse-lhe que Ele não o rejeitou. Esse rapaz foi para missões e através da vida dele uma tribo indígena inteira se converteu a Jesus.

Quando a carta da missão chegou eu tremia de medo de ter uma resposta negativa, mas foi a maior alegria quando vi que eles me aceitaram. Então fui falar com meu pai, apesar de já ser maior de idade e ter a minha igreja me apoiando, eu tinha muita submissão a autoridade do meu pai. Ao falar com ele, ele não me deixou ir. Disse que de jeito nenhum eu iria. Então eu não fui. Mas tive esperança de que até o início da escola Deus iria fazer alguma coisa e mudar o coração do meu pai, mas não, ele continuou firme e eu não fui.

Com tudo isso que aconteceu; meu pastor sentindo que deveria ajudar, o desejo ardente em missões, eu não duvidei que Deus me queria em missões, aquele desejo ardente que eu tinha no meu coração só podia ter vindo dEle, mas eu entendi que Deus me queria sim em missões, mas não era a hora. Continuei servindo a minha igreja no ministério infantil.

Um dia, não me lembro quando, eu tive um sonho, no sonho eu via um homem só pelas costas, era como se ele estivesse na beira de uma montanha, eu notei que ele usava uma roupa diferente, uma roupa que eu nunca tinha visto. Acordei e me lembro que não entendi o porquê aquele sonho me incomodou tanto.

Em 1992 eu estava assistindo a abertura dos jogos olímpicos, eu achava lindo ver a abertura, cada país entrando com sua bandeira, de repente aparece pessoas com a placa escrito NEPAL e nesse momento eu vi pelo menos um homem com a roupa igualzinha à do meu sonho, aquilo me impressionou tanto que eu corri para pegar um papel e anotar o nome Nepal, quando voltei a olhar, eles já tinham passado, pois o time nepalês sempre foi muito pequeno. Mas aquilo ficou marcado dentro de mim, pois depois de ter tido um sonho e no sonho vi alguém com uma roupa que eu nunca tinha visto e esse sonho ter me incomodado tanto, aparece na abertura das olimpíadas alguém com a roupa que vi no meu sonho. Foi tudo tão rápido que nem consegui ver a fisionomia daquele homem, só vi a roupa.

Eu fiquei tentando descobrir então onde era o Nepal, eu nunca tinha ouvido falar deste país, a princípio pensei que seria na África, mas naquela época eu nunca tinha visto um computador a minha frente para fazer pesquisas, então comecei a procurar na biblioteca da cidade. Acabei por descobrir em um Atlas que o Nepal ficava na Ásia, mas eu não tinha uma foto das pessoas do Nepal, não sabia como eles se pareciam. Nos dias de hoje seria muito fácil ter essas informações, mas naquela época sem computador e dependendo apenas da biblioteca da cidade, eu não consegui muita coisa, mas lembro que sempre estava à procura. Passei a amar o Nepal e a desejar ardentemente ir para essa nação. Senti que isso vinha de Deus.

Um dia eu e minha irmã saímos para um ensaio do grupo de jovens da igreja, chegamos lá e não teve ensaio e não sabíamos, voltamos então, e quando chegamos em casa, o novo pastor da igreja da minha mãe (ela frequentava uma outra igreja) esse pastor era novo na cidade, e eu não o conhecia, ele tinha ido lá para visitar a minha mãe. Chegamos em casa e ele veio até a mim e me disse: “Você tem um chamado missionário não tem?” Eu, surpresa contei a ele o que tinha acontecido no passado, que eu queria ter ido a missões, mas meu pai não me deixou. Ele me disse que quando saiu da casa dele, segundo as palavras dele, o Espírito Santo lhe disse que uma das filhas da irmã Luiza viria a ser uma missionária, ele disse a Deus “mas eu nem conheço as filhas da irmã Luiza”, e naquele dia quando voltamos para casa, entramos, entrou primeiro minha irmã, e em seguida eu, assim que ele me viu Deus mostrou que seria eu. Ele então orou por mim e logo após a oração ele disse que teve uma visão comigo. Na visão ele me via rodeada de pessoas dos olhos puxadinhos como índios. Ele disse que deveria ser algum país da América do Sul, pois nesses países as pessoas têm olhos assim. Eu agradeci, mas em meu coração eu pensei, “isso não vem Deus, pois eu tenho certeza de que Deus me chama para o Nepal, que fica na Ásia.” Interessante ressaltar que ele não afirmou de que seria um país da América do Sul, apenas disse que talvez seria, pois é ali que ele conhecia pessoas com olhos assim.

Assim que o pastor foi embora, eu abri minha Bíblia e meus olhos caíram exatamente num versículo em 1 Coríntios 16:19 que dizia: “As igrejas da Ásia vos saúdam” Aquilo foi interessante, pois entendi que era uma confirmação, que era Deus me mostrando que era Ásia sim o meu chamado e não América do Sul.

O tempo foi passando e um dia, nem sei como, nem lembro de quem era a cartilha, mas achei uma cartilha escolar onde tinha uma teoria de que os povos indígenas das Américas teriam vindo da Ásia, e ali mostrava a foto de uma mulher Nepalesa e a foto de um menino indígena da América, os traços dos dois eram o mesmo, pareciam mãe e filho, os mesmos olhos puxadinhos, o mesmo nariz pequeno, a mesma boca, a mesma cor de pele, o mesmo cabelo lisinho. Eu fiquei surpresa, e aí entendi a visão do pastor, embora ele tenha achado que na visão eu estaria rodeada por pessoas da América do sul era na verdade nepaleses. Aquilo foi se juntando pra mim como um quebra cabeça se resolvendo, primeiro o sonho, depois descubro que a pessoa no meu sonho era do Nepal, depois a visão do pastor de pessoas com características do Nepal e ainda o versículo que falava da Ásia. Isso foi o suficiente para eu entender que Deus me chamava mesmo para o Nepal. O desejo de ir a esse país só aumentou.

Mas o tempo foi passando e eu ainda aguardava o dia que Deus iria me enviar. Passaram-se anos. Era o ano de 1997, eu tinha ido morar em outra cidade para trabalhar. Meu patrão era cristão e um dia ele me disse que a JOCUM tinha chegado a Maringá, estavam abrindo uma base ali, ele ficou sabendo por que os missionários foram a igreja dele. Eu fiquei curiosa, mas não sabia onde era a base.

Um dia andando em uma praça, havia ali alguns jovens fazendo teatro na rua, com os rostos pintados igual faziam o pessoal da JOCUM que tinha ido a minha igreja anos atrás, eu pensei que fossem da JOCUM, fiquei ali assistindo e uma mulher se aproximou de mim e me perguntou se eu sabia de que igreja eram aqueles jovens, eu respondi que achava que eles eram da JOCUM, ela me disse que não, pois ela era da JOCUM e aqueles jovens não. Ali foi o meu primeiro contato com alguém da JOCUM naquela cidade. Então comecei a conversar com ela e ela me falou que estariam iniciando uma escola noturna, então eu fui lá, fiz minha inscrição e fui fazer essa escola noturna, Deus falou muito comigo neste tempo, e eu comecei a desejar muito ir definitivo para a JOCUM. Falei com Deus que eu só iria pedir permissão ao meu pai novamente se Deus me desse um sinal de que era a hora. Eu já tinha 27 anos, morava em outra cidade, mas ia todo final de semana pra casa, e ainda devia muita submissão ao meu pai. Pedi a Deus um sinal e o tempo foi passando. A Escola de Treinamento e Discipulado da JOCUM iria começar, era o ano de 1998, eu ainda aguardava por um sinal de Deus, eu tinha pedido para me dar um sinal específico, pois se Ele me desse esse sinal, eu iria entender que era o tempo, mas os dias foram passando e já estava para iniciar e nada. Um dia, no trabalho, eu era secretária de uma fábrica, e meu trabalho era atender telefone e fazer notas fiscais, por isso tinha muito tempo para ler, lia a Bíblia e livros cristão, e nesse dia eu li sobre quando Jesus foi crucificado, de repente eu comecei a sentir a tristeza e decepção dos discípulos, eu comecei a pensar em como eles deveriam ter estado se sentindo naquele momento, depois de caminhar 3 anos com Jesus, ver todos os milagres que Jesus fez, ouvir todos os ensinamentos dEle e agora viam a esperança deles morrer, imaginei como eles se sentiram na época, a angústia que estavam sentindo, e em meu coração me veio a palavra que eles não imaginavam que a alegria deles voltaria em 3 dias.  Nisso alguma coisa acendeu em mim, a sensação de que a minha alegria também voltaria em 3 dias.

 Passados 3 dias eu não me lembrava mais daquela sensação, mas ao ir trabalhar, um verso de uma canção me veio à mente, o verso dizia, “o fim da espera chegou”. Naquele momento me veio a lembrança de um acontecimento que tinha me passado despercebido, o sinal que eu tinha pedido a Deus tinha sido feito, Deus me deu o sinal um dia ou uns dias antes, mas por algum motivo eu não lembrei de que era a resposta daquele sinal que eu tinha pedido a Deus.  Naquela hora eu vi que Deus estava me mostrando que era hora de ir para missões, então liguei ao meu pastor, o mesmo que era seminarista na época, e perguntei se ainda a igreja estaria disposta a me apoiar financeiramente na missão, ele disse que sim, então falei com meu pai e dessa vez ele deixou, fiz a aplicação fui aceita, tudo em cima da hora, faltava eu falar com meu patrão, fiquei sem saber se ele me deixaria sair sem um aviso prévio. Ao falar com ele, ele me disse: “se fosse pra outra coisa eu não deixaria, mas para servir a Deus eu deixo”, mas me pediu para ficar somente mais uma semana até achar alguém para me substituir. Eu conversei com a missão e eles me permitiram ficar meio período no trabalho, por uma semana já que a Escola iria começar. Foi aí que ingressei em Jovens Com Uma Missão no ano de 1998. Foi ali que conheci Carlos, e nos casamos no ano de 2.000. Carlos tinha vindo junto com a equipe para abrir a base ali.

Durante este tempo servindo ali na base eu viajei muito com equipes de prático das Eteds seguintes, indo para várias cidades do Paraná, e São Paulo onde fazíamos evangelismo.

Depois de casada, como tinha chamado para o Nepal, Carlos abraçou meu chamado, e em 2001 fomos para o Rio de Janeiro para eu fazer a escola de inglês ali na base do Rio. Esse foi o primeiro passo que sentimos que devíamos tomar para que pudéssemos ir para o Nepal. Carlos já falava inglês e por isso foi servir como staff da escola. Ali na base do Rio, depois de fazer a escola de inglês, eu desejava engravidar, achava que já era hora, já estávamos casados a 2 anos, mas eu temia muito não conseguirmos sustentar uma criança. Perguntamos a um missionário dali da base, que tinha filhos se era caro sustentar uma criança, pois nosso sustento só dava para pagar a mensalidade da base e quase não sobrava nada, esse missionário brincou, falando que precisávamos de mais um salário-mínimo para sustentar uma criança, ele apenas brincou, pois ele não gastava isso, mas da forma que ele falou, parecia verdadeiro e eu e Carlos acreditamos. Comecei a orar então e perguntar pra Deus se deveria engravidar, ao mesmo tempo que parecia errado fazer esta oração pois acreditamos que Deus quer que nós cristãos tenhamos filhos, mas o temor me impedia, nossa vida não era tão fácil assim, a qualquer despesa extra, uma igreja simplesmente nos cortava e faltava sustento, então eu precisava ter certeza de que era da vontade de Deus, foi aí que de novo pedi um sinal a Deus. Ali naquela base tinha uma menininha de um ano a um ano e meio que não ia no colo de ninguém. Eu lembro que as pessoas chegavam pra ela, quando ela estava no colo da mãe e a chamavam, ela para não ir, começada a bater nas pessoas. Eu sabia que aquela menina nunca iria no meu colo se eu a chamasse, por isso pedi isso como sinal a Deus. Disse a Deus, se eu chamar a menina e ela vir para os meus braços eu ter certeza de que o senhor quer que eu engravide. Mas eu ainda não tinha chamado a menina até o dia que fomos fazer uma intercessão no jardim da base. Lembro que eu estava com o olho fechado orando, quando uma criança agarrou na minha perna. Eu olhei e era ela, ela não estava olhando pra mim, então imaginei, “ela deve estar achando que eu sou a mãe dela, assim que ver que não sou, vai sair correndo” A menina então olhou pra cima e me viu, eu estiquei os braços chamando-a para meu colo e ela simplesmente veio. Foi maravilhoso sentir Deus respondendo minha oração.  

 Depois de grávida, resolvemos ir para Curitiba, onde tem os Projetos Internacionais, ficamos ali, servindo a base e ao nosso projeto, fazendo pesquisas, conversando com missionários no Nepal, coletamos muitas informações. Nesta época já tínhamos computador para pesquisas, então nos enchemos de informações sobre o Nepal. Essas informações foram tão importantes que nem tivemos choque cultural quando lá chegamos, pois já sabíamos de quase tudo o que nos esperava.

Nossa filha nasceu em 2003 e então quando ela tinha 1 ano e meio fomos a Porto Velho para Carlos fazer uma escola transcultural. Ficamos lá por 4 meses e voltamos ao Paraná, Carlos voltou em tratamento para malária, que ele adquiriu lá em Porto Velho.

Continuamos servindo a base e divulgando nosso projeto, eu desejava ardentemente ir ao Nepal, ao ponto de pensar que se tivesse que nunca mais voltar estaria ok, até que um dia eu tive um sonho, no meu sonho eu me via no Nepal junto com Carlos e nossa filha nos braços, então estávamos em um lugar com paredes de vidro atrás de nós e alguns jovens vieram aonde estávamos, e esses jovens estavam todos com camisetas brancas. Em seguida policiais vieram e começaram a revistar os jovens e acharam com eles folhetos evangelísticos, e levaram todos presos, e como nós estávamos ali, nos levaram também, e eu me lembro que uma policial me tomou minha filha de mim, e eu comecei a implorar que me devolvessem ela. Acordei muito assustada e com muito medo. Era tanto medo que nem tive coragem de contar o sonho ao Carlos. Durante este tempo na JOCUM ali em Curitiba, uma vez por semana nosso projeto orava com os alunos da ETEd pelo Nepal, naquele dia Carlos foi orar com os alunos e eu fiquei em casa, quando Carlos chegou eu tive coragem de contar meu sonho a ele, ele me disse que naquela manhã, enquanto buscavam de Deus para o que orar, uma menina teve a visão de uma criança sendo tirada dos braços da mãe, aquilo intensificou meu medo, mas o pessoal da nossa equipe me confortou dizendo que isso não significava que iriam me tomar Emanuele, mas que tínhamos que orar pois isso podia estar acontecendo com alguém no Nepal.

O Nepal naquela época, estava passando por uma guerra civil que durou 10 anos, os cristãos eram muito perseguidos e presos e muitas igrejas eram incendiadas. Eu me lembro que depois desse sonho uma irmã da minha igreja me perguntou se eu ainda queria ir para o Nepal, ela não sabia do meu sonho, eu disse a ela, que antes eu queria muito, mas agora eu iria sim, se Deus abrisse as portas eu iria por obediência, mas não por vontade.

Deus foi tão bom que só nos abriu as portas para ir para o Nepal em 2006, no ano que acabou a guerra civil.  Nesse ano, era uma manhã de terça feira, hora de oração na base e estavam buscando a Deus sobre o que deveriam orar, como sempre faziam e Carlos sentiu Deus falando que iria usar um casal para nos dar o dinheiro que faltava das passagens. Sempre depois de buscarem de Deus o que orar, todos compartilhavam para que orassem juntos, e Carlos disse que teve a sensação de Deus lhe falar algo, mas era particular e por isso não iria compartilhar, um missionário lhe disse, “ah fala mesmo assim para que possamos orar”, e ele então falou o que sentiu que Deus lhe tinha falado. Quando foi na sexta feira recebemos um e-mail de um casal que nos dizia que achavam que era hora de nos ajudar a ir para o Nepal e nos enviaram o que faltava para nossa ida ao Nepal. Nós nem tínhamos todo o sustento necessário para viver lá, mas começamos os preparativos para ir.

Desfizemos de tudo o que tínhamos, algumas coisas deixei na minha mãe, fomos para o Rio de Janeiro e norte do Paraná para nos despedir de nossa família. Ainda me lembro o dia que vi meu pai pela última vez, ele já estava bem doente e na cadeira de rodas, eu não tive coragem de dizer a ele que estaria me mudando para o Nepal, talvez tenha errado nisso, mas quis poupá-lo, simplesmente me despedi como sempre fiz desde que fui pra JOCUM, e prometi que faria o possível para voltar no próximo ano. Ele ficou chorando, e foi uma despedida muito difícil. Entrei no avião com aquela sensação de “o que estou fazendo?” Meu pai faleceu 3 meses depois, eu não sei se ele soube que eu estava no Nepal. Não sei se alguém contou a ele.

Chegamos no Nepal em outubro de 2006, foi uma viagem longa demais, viagem de dois dias e duas noites, saímos do Paraná a São Paulo de ônibus viajando a noite, pegamos o voo em São Paulo, que fez duas escalas na Alemanha, uma de 6 horas e outra de 3, e depois na Índia, lá chegamos a noite e o voo para o Nepal era só no próximo dia no meio da manhã. Lembro que no aeroporto da Índia, Emanuele estava com fome e me pediu um salgadinho, fomos comprar e tinha alguns tipos que eu não conhecia, ela escolheu um e quando colocou na boca ela gritou pois estava queimando a boca dela de tão apimentado, eu não imaginava que colocavam pimenta nos salgadinhos, era tao apimentado que ate eu que gostava de pimenta comi com o maior cuidado.

Passamos a noite ali sentados e no outro dia viajamos para o Nepal. Chegamos lá e uma equipe da JOCUM nos esperava no aeroporto. Carlos cometeu a primeira gafe, foi entrar na van que estava lá nos esperando e o motorista falou, “este lugar é meu” Opa, foi aí que Carlos percebeu que no Nepal eles dirigem do lado contrário. A caminho da base foi emocionante, ver aquelas mulheres com as roupas típicas do Nepal andando nas ruas, coisas que só víamos em fotos, foi realmente emocionante. A base nos pediu que ficássemos 15 dias hospedados com eles, para termos o contato com os obreiros, e só depois procurássemos uma casa. Foi uma experiencia transcultural, a forma que comiam, a comida que comiam, tudo bem diferente e enriquecedor.

No Nepal entramos com visto de turista e logo teríamos que trocar por um visto de estudante para poder ficar no país, pois o visto de turista só nos deixava ficar por 5 meses, então para podermos permanecer lá, eu fui estudar a língua nepalesa na universidade, e bastava uma pessoa estudando para toda família ter o visto. Todos os dias quando ia para a escola que ficava no Centro de Kathmandu, eu via uma mulher com duas crianças pedindo esmolas, um menino não tinha as perninhas e andava se arrastando, o outro que era um bebê estava sempre dormindo no chão sujo de Kathmandu. Eu tinha muita pena das crianças, e sabia que estavam sendo exploradas por seus pais, mas não sabia como ajudar. Um dia eu estava em jejum e abri a minha Bíblia, meus olhos foram diretos para um versículo que dizia assim: “Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor?

O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo?

 Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?”

Eu entendi que Deus queria que eu fosse o canal para soltar o jugo em que essas crianças estavam presas. Abrigar o desemparado me deixou alarmada, como eu iria abrigar o desamparado? Eu não moro sozinha, tenho uma família, não posso sair pegando todo mundo da rua e colocar dentro de casa. Aquilo me deixou sem saber o que fazer.

Eu estava grávida, esperando meu filho, e não tínhamos muitas finanças, pois saímos do Brasil sem ter todo o nosso sustento necessário para o Nepal. Num determinado momento já estávamos a alguns dias comendo arroz, feijão e batatas. Eu grávida sentia meu corpo desesperado por verduras e legumes, então compartilhamos na nossa reunião de oração junto com o pessoal do nosso projeto essa necessidade de que chegasse dinheiro para fazer compras. Sempre tivemos liberdade para compartilhar nossas necessidades, e o pessoal do nosso projeto compartilhava as deles. Mas passou uns dias e uma pessoa do nosso projeto me perguntou se o dinheiro já tinha vindo para fazermos as compras, eu disse que ainda não, ela então me fez uma pergunta: “Você tem mesmo certeza de que era para vocês virem para o Nepal?” Aquela era uma simples pergunta, mas acredito que o inimigo usou para me atacar e me fazer ficar em dúvidas, eu nunca tive dúvida sobre o meu chamado para o Nepal, se tinha uma coisa que eu tinha certeza era de que Deus me chamou para aquele país, mas coisas começaram a vir a minha cabeça. Tipo: talvez não tenha sido a hora. Eu tenho chamado, mas não era a hora de vir... coisas assim. Isso me trouxe uma angústia muito grande, mais do que eu podia suportar, eu comecei a pensar se estávamos em pecado de termos nos precipitados em ir para o Nepal. Naquele desespero e uma angústia tão grande, eu disse a Deus que precisava de uma resposta, eu não conseguia pensar em passar uma noite com tanta angústia, não iria aguentar, foi aí que pedi a Deus um sinal. No meu desespero eu disse a Deus “eu preciso comer vegetais, se o Senhor me der hoje, eu vou entender que era sim a hora certa e não erramos em vir, mas se o senhor não me der, vou entender que devemos ir embora, por isso só me de se era mesmo pra termos vindo, pois se não , se erramos em vir, vou fazer de tudo para voltarmos, pois não quero ficar aqui em desobediência.” (Eu não recomendo ninguém fazer pedidos assim, a não ser que esteja tomado de uma grande angústia e precise realmente de uma resposta) De alguma forma, aquele pedido a Deus me aliviou, pois agora eu sabia que estava nas mãos de Deus, se nada acontecesse naquele dia, no dia seguinte eu saberia que deveríamos voltar.  O dia passou, e todo final de tarde uma menininha coreana de uns 3 aninhos vinha até minha casa brincar com Emanuele, todos os dias ela vinha, e mais tarde a mãe ou o irmão vinham buscá-la. Naquele dia a mãe da menina veio buscá-la e quando chegou em casa, chamou Emanuele para ir junto até a casa dela, ela perguntou se Emanuele queria ir, e ela disse que sim. Eu como conheço minha filha, sabia que Emanuele não iria, pois ela nunca foi pra casa de ninguém sem mim, então preocupada de que assim que Emanuele percebesse que tinha se afastado de casa sem mim, pudesse voltar correndo, e eu fiquei parada na esquina olhando para cuidar que se ela voltasse eu iria me encontrar com ela, para protegê-la de algum carro, Emanuele tinha uns 4 para 5 anos nessa época. Aconteceu exatamente igual ao que eu pensei, Emanuele foi até a esquina da casa dessa coreana, e assim que percebeu que iria para lá sem mim, ela voltou correndo, a coreana então veio atrás se lamentando, dizendo; “Emanuele não quer ir para minha casa”. Eu disse a ela que não era que ela não queria ir, é que ela não costumava ir para lugar algum sem mim, então a coreana me disse: “Você quer ir a minha casa?” Eu disse, ok vamos lá, e assim fomos. Ao chegar lá, ela me disse que tinha trabalhado o dia inteiro fazendo Kimchi, que é uma comida coreana feita com acelga e alguns vegetais, ela fazia de montes de uma só vez para guardar pois dura muito tempo, pois com o tempo fermenta. Ela me perguntou se eu gostava de Kimchi, eu disse que nunca tinha comido, ela então com um garfo me deu para provar, e eu provei e gostei muito, ela me disse então: Você quer levar um pouco? Eu disse sim, quero sim. Ela pegou uma acelga inteira com os vegetais misturados juntos e me deu. Eu fui pra casa aquele dia feliz de poder comer algo diferente, só ao chegar em casa me lembrei do que pedi a Deus, que eu comesse vegetais aquele dia, e Deus usou uma mulher coreana budista para suprir a minha necessidade e responder o meu questionamento. Aquele dia entendi sim que era para eu ter ido. Deus é maravilhoso!

A questão do meu ministério, o desejo de ajudar a tirar aquelas crianças da rua não saia da minha cabeça, o versículo de que deveria libertar os oprimidos, eu não sabia ao certo como. No dia que Yoseph nasceu, naquela mesma noite, uma amiga foi dormir no hospital comigo, enquanto Carlos ficava em casa com a Emanuele. Naquela noite eu me lembro que essa amiga tentava me aconselhar de que eu deveria somente me dedicar a ser mãe, não ao ministério, mas enquanto ela falava, toda a direção de como deveria ser o projeto para tirar essas crianças da rua começou a vir na minha cabeça. Eu não deveria trazer as pessoas para minha casa, mas abrir uma casa para trazer essas pessoas, ali ensinar trabalhos manuais e corte e costura para essas mães, para assim ajudar as crianças, colocar essas crianças na escola etc. Tudo na noite que Yoseph nasceu. Antes disso, meses antes, quando eu desconfiei que estava grávida, fui falar com o Carlos, disse a ele que eu acreditava que estava grávida, ele me disse com toda a certeza do que estava falando: “você está, vai ser um menino e vai se chamar José.” Deus tinha dado uma Palavra a ele sobre aumentar sua semente e ele foi meditar sobre a história de José, o nome José significa “Deus acrescentará”. Ele entendeu então que seria um filho, mas também um ministério. E é interessante que toda a direção de como atender ao desafio que sentia vir de Deus tinha vindo na noite do dia que Yoseph nasceu. Yoseph significa José, resolvemos colocar o nome José na língua nepalesa.

Quando Yoseph tinha 5 meses comecei a sair às ruas para fazer pesquisas, tinha conversado com a médica dele e ela me disse que eu poderia já dar um leite para bebê para que ele aguentasse até eu voltar, ele então ficava com o Carlos.  Já tinha escrito o projeto o qual demos o nome de New Life House, mas tínhamos ainda coisas e acrescentar ou tirar. Comecei junto com uma amiga a ir visitar as mulheres nas ruas para descobrir se realmente eram necessitadas, foi aí que descobri uma realidade bem diferente do que pensava.

Nossa estratégia era, eu levava uma pequena cesta básica e um valor em dinheiro e oferecia. Falava que queria fazer uma pesquisa e para isso precisava ir à casa delas, e para que elas não perdessem dinheiro, daria aquela cesta e o pequeno valor em dinheiro. Eu tinha perguntas a fazer, já tinha tudo em um papel, mas queria observar o ambiente que viviam, pois já tinha ouvido falar de pedintes que eram muito ricos e iam pedir para não trabalhar.

Naquele dia fui e encontrei aquela mulher que sempre via na rua, a mesma que foi o motivo de sentir tanto desejo em ajudar os filhos dela. Ela tinha com ela o menino que tinha problema nas perninhas e o outro que já estava um bebê mais crescido. Quando falei com ela, tive uma surpresa, ela disse que iria ver com o marido se podiam deixar de pedir esmolas aquele dia para nos levar até a casa deles, eu não sabia que o marido estava ali. Só aí fui perceber que ele ficava ali o tempo todo, não trabalhava, mas ambos, pai e mãe exploravam os filhos, os usavam para pedir esmolas. O marido aceitou e fomos a casa deles, era longe, andamos muito, parecia que nunca chegava, até que chegamos a um lugar bem diferente das casas nepalesas, era um lugar com casinhas minúsculas feitas de bambu, chegamos até a casa dela e me mostraram a casinha, muito pequena que nem dava pra entrar, mas vi onde dormiam, sentamos ali fora no chão para fazer as perguntas que tinha no formulário e um rapaz muito bem arrumado e boa aparência se sentou junto, quando eu fazia pergunta aos pais, aquele rapaz é quem respondia, não demorou logo para me encher de medo, percebi alguma coisa muito estranha ali, entendi que aquele rapaz tinha domínio na família, e talvez em todos que moravam ali, foi ai que descobri que no Nepal também tinha esse sistema de “cafetão” onde pessoas trazem outras pessoas para um local, dão casa, as vezes comida, mas elas tem que pedir esmolas e se submeter a eles. Vi que seria muito difícil tirar aquela família dali. Fui embora naquele dia com muito medo, não via a hora de sair dali.

Mas não desisti das minhas pesquisas, continuei e depois de algum tempo já com o projeto escrito fomos ao Brasil e conseguimos uma única igreja para ser mantenedora deste projeto. Essa igreja decidiu manter o projeto com 500 dólares, mas também nos adotou com outros 500. Quando voltamos ao Nepal, e já tínhamos apresentado o projeto a nossa base, eles como regra, só autorizam o início de um projeto se tivermos obreiros, e eles estavam orando conosco para termos esses obreiros, e logo um casal se apresentou para trabalhar conosco. Achamos uma casa para alugar e uma moça se juntou a nós, ela era costureira e apareceu na hora certa, assim iniciamos a New Life House. Saíamos as ruas com esse casal e a moça para recrutar mulheres, essa mulher que eu queria muito tirar seus filhos da rua, desapareceu, eu não a via mais. Um dia vi o marido que parecia drogado ou bêbado junto com o filho que tinha problema nas perninhas, mas não via a mulher com o bebê. O menino ficava ali pedindo esmolas e o pai só andando pra lá e pra cá, tirando o dinheiro do bolso e contando.

Passamos a receber não somente mulheres de rua, mas de favelas também, e de vilas. Alguns pastores de vilarejos as vezes ficavam responsáveis por mulheres que tinham sido expulsas de suas casas, algumas por terem se convertido, outras por terem engravidado. Ao serem expulsas as únicas pessoas que as recebiam nas vilas eram os cristãos. Então esses pastores ao saber da New Life House nos pediam para receber essas mulheres, ali ensinávamos corte e costura a elas, para que pudessem voltar as suas vilas com uma profissão. Não tínhamos muito dinheiro, os 500 dólares que a igreja enviava servia para pagar o aluguel da casa que custava 300 e pagávamos a comida e as outras contas, água, luz, gás, e uma cozinheira para nos ajudar, o valor não dava, pois, as vezes contando com os obreiros tínhamos mais de 15 pessoas na casa, então usávamos o valor da nossa parte, dos nossos 500 que a mesma igreja enviava e ofertas extras que chegavam na hora certa.

Um dia me lembro que estávamos na New Life House, na hora da nossa reunião matinal, eu estava dando um estudo a elas, e estávamos sentadas todas no chão em um círculo, coisa comum no Nepal, quando olhei para cada uma delas, percebi que eram todas da mesma fisionomia, inclusive as duas staffs, todas de olhinhos bem puxadinhos, cabelos lisinhos, nariz pequenos, aquilo me fez voltar ao passado e lembrar da visão que aquele pastor teve anos antes, quando ele me via rodeados de pessoas dos olhinhos puxadinhos como índios. Eu me emocionei tanto naquela hora que contei a minha experiencia a elas. Só para explicar, nem todos os nepaleses têm essas características, apesar das várias castas a qual se dividem, eles também se dividem em duas categorias, os que são descendentes dos indianos, que geralmente tem a pele mais escura e as vezes tem o cabelo mais crespo e o nariz maior, e os descendentes dos tibetanos, mongóis etc., que tem essa característica de ter os olhos mais fechadinhos, o nariz menor, e o cabelo bem liso. Costumamos receber mulheres das duas categorias, mas nesse dia, estávamos em uma roda sentados ao chão e aconteceu que todas eram da mesma fisionomia da visão que o pastor teve, e era o nosso primeiro grupo de mulheres que tínhamos recebido em nosso projeto.

Depois de alguns anos eu finalmente encontrei aquela mulher que foi o motivo de querer abrir esse projeto. O bebê já tinha crescido, e essa mulher já tinha uma outra menina. Conversando com ela, ficamos sabendo que o marido tinha morrido, eu então a convidei para ir ao projeto e ela aceitou, mas nos pediu que voltássemos no outro dia para buscá-los. Fomos então no outro dia, no lugar marcado e buscamos os 4, a mãe, o menino com problema nas perninhas o Rupesh que era o bebê que víamos nas ruas e nessa época já era um menino nos seus 5 ou 6 anos, e a irmãzinha dele. Marcamos de nos encontrar ali no centro da cidade e chegando ali, estavam todos a nossa espera. Chegando na New Life House, foram as 3 crianças tomar banho, lembro que o Rupesh não queria tomar banho, pois no Nepal é costume tomar banho no lado de fora da casa na água fria, mas na hora que ele sentiu a água quentinha no corpo dele, ele disse que queria tomar banho todos os dias. Eu estava muito feliz de ter aquela família ali, mas no outro dia tive uma surpresa. Os obreiros da casa me disseram que aquela noite alguém ficou ligando para a mulher a noite toda e no outro dia ela foi embora levando consigo o menino com o problema nas perninhas e a menina, só deixou o Rupesh porque ele disse que nunca mais queria voltar para as ruas. Demorou mais, acredito que um ano para eu reencontrá-la na rua e ela me disse que alguém tinha oferecido muito dinheiro pela filha dela, eu então implorei, perguntei a ela se ela tinha consciência do porquê queriam comprar a filha dela, disse a ela que se não pudesse cuidar da filha que me entregasse que eu iria cuidar. Um tempo depois ao encontrá-la novamente, ela disse que iria nos entregar a filha, e nos entregou. Ela disse que tinha que ficar nas ruas pois tinha dívidas que tinha que pagar e o menino com problema nas perninhas já estava bem um menino de rua, ele gostava daquela vida e não quis sair. Passaram-se anos e Rupesh que hoje já é um rapaz e sua irmã estão até hoje bem, sob os cuidados de missionários lá no Nepal.

Na New Life House recebíamos muitas mulheres, inclusive de lugares remotos, senti me honrada de ter o privilégio de sermos os primeiros a falar de Jesus para duas moças que vieram de um lugar remoto e que disseram que nunca tinham ouvido falar de Jesus antes, mas é triste pensar que ainda existe essa realidade no Nepal e em tantos outros lugares.

Alguns anos depois recebemos uma oferta de um pastor, ele nos disse que essa oferta era para ser usada para a nossa família. Assim tendo uma oferta específica para nós, ficamos muito felizes e resolvemos tirar férias, queríamos muito sair um pouco do Nepal para descansar e resolvemos ir para a Tailandia e Malásia. A Tailandia fica a 4 horas de avião do Nepal e é um país barato, pelo menos naquela época, mas acho que continua sendo. O dinheiro era suficiente, pois ficaríamos mais tempo na Malásia onde tínhamos onde nos hospedar. Estávamos planejando a viagem quando a mãe do Carlos ficou doente e internada na UTI, eu não queria que acontecesse o mesmo que aconteceu com meu pai, de ele ficar internado e eu não poder voltar para vê-lo, então incentivei o Carlos a usar o dinheiro das nossas férias para ir ao Brasil ver a mãe dele. Avisamos o pastor que apesar de termos dito que usaríamos para outra coisa, devido a essa urgência usaríamos o dinheiro para Carlos ver a mãe. O pastor então, acredito eu, que compartilhou com irmãos e nos enviou o mesmo valor para que não deixássemos de ter nossas férias depois que Carlos voltasse. Carlos foi então ao Brasil e ao chegar lá, visitou a mãe dele e logo no outro dia ela faleceu, parecia que estava somente esperando por ele.

Carlos voltou e fomos viajar, foi muito bom poder descansar.

Mas depois da perda da mãe do Carlos, Emanuele nossa filha, começou a dizer que queria que todos nós voltássemos para o Brasil para morar lá junto com a vovó. Eu entendi que como ela nunca pode ficar perto da avó, já que no Brasil morávamos a 7 horas de distância da minha mãe, ela tinha medo de perder mais uma avó sem ter tido a chance de ficar por perto, comecei a desejar trazer minha mãe para o Nepal para ficar lá pelo menos por 5 meses que é o tempo que o Nepal permite que se fique como turista por ano, para que nossa filha tivesse a experiência de ter a avó por perto. Falei com Carlos e ele gostou da ideia, mas eu não sabia como fazer para trazer minha mãe para o Nepal. Eu cria que se orasse, Deus enviaria os recursos, mas temia que nossos parentes que não eram evangélicos não entendessem de onde arrumamos aquele dinheiro, pois naquela época, estávamos cansados de ouvir escândalos de “pastores” que falavam muito em dinheiro e se enriqueciam, e como tenho muitos da minha família que não são evangélicos, eles poderiam se escandalizar achando que nós éramos iguais a estes que davam escândalos, pois de onde esses missionários conseguiram tanto dinheiro para levar a mãe para o outro lado do mundo? Eu orava por uma estratégia de conseguir dinheiro trabalhando, mas no Nepal é proibido um estrangeiro trabalhar, e o salário na época era em torno de 20 dólares, que não dava para nada, além de que só o visto de uma pessoa de nossa família era 50 por mês, sem falar a escola para ter direito ao visto de estudante que era 100. Foi aí que um dos missionários que vivia lá no Nepal, que é brasileiro foi se casar com uma moça nepalesa, e eu disse que meu presente seria salgados. Eu iria fazer coxinhas para o casamento dele. Ele gostou da ideia, e no casamento vieram outros brasileiros que moravam bem longe e todos ficaram muito felizes quando viram coxinhas no casamento. Foi aí que começaram a me pedir para fazer salgados. Eu comecei a fazer, e esse grupo de brasileiros que moravam longe, tinham um grupo muito grande com eles, que eles cuidavam e então quando davam festas faziam um pedido muito grande de salgados, eu lembro que um dos casais chegou a me pedir 1500 salgados de uma vez. Eu sempre comentava pra minha família o quanto tinha recebido aquele dia com as vendas dos salgados, para que soubessem que estava trabalhando para levar minha mãe para o Nepal. Um dia esses brasileiros convidaram o pessoal da embaixada para a festa deles, e depois disso recebi um telefonema de um secretário da embaixada me fazendo pedido de salgados para a festa dele, fiz e fui lá fritar na casa dele, lá conheci o cônsul que virou meu freguês, toda sexta feira ele enviava o motorista dele lá em casa para buscar salgados. Enfim consegui algum dinheiro para a viagem da minha mãe, meus irmãos também colaboraram, e uma tia também, e pedi a um casal de amigos que estavam no Brasil se podiam trazer minha mãe com eles. Se aceitassem compraríamos as passagens junto com as deles, mas não sabíamos que eles estavam planejando uma excursão, trariam pastores ao Nepal, mas passariam por Israel e Egito antes, e como era uma excursão, conseguiram bons preços. Eu não falei para minha mãe sobre essa ideia da excursão, pois não sabia se daria certo, mas falei pra minha irmã, pedi para ela não contar pra minha mãe até ter certeza, mas ela não aguentou e contou. A minha mãe chorou de emoção quando ouviu que iria para Israel. O que acho lindo nas coisas que Deus opera, é que eu sempre tive o sonho de ir para Israel, mas toda vez que pensava em um dia ir, eu ficava triste, pois eu pensava comigo que se eu fosse eu iria ficar pensando na minha mãe, como eu poderia ficar feliz conhecendo Israel e pensando que minha mãe nunca poderia conhecer. Eu nem sabia que minha mãe tinha o sonho de ir pra lá, mas eu tinha e não conseguia pensar em ir e ficar feliz sem minha mãe junto comigo lá. E Quem acabou indo foi ela, minha mãe, e o engraçado é que eu me senti realizada, é como que a minha mãe indo, eu tivesse ido junto, fiquei feliz e realizada da minha mãe ter ido a Israel. Ela veio ao Nepal depois, ficou conosco por quase 5 meses, a levamos também para a Índia, pois tínhamos que renovar o passaporte do Yoseph, pois apesar de ter a embaixada do Brasil no Nepal, ela ainda não estava funcionando na época para fazer passaportes. Lá na Índia aproveitamos enquanto aguardávamos o passaporte ficar pronto para levar minha mãe para conhecer o Taj Mahal e Jaipur, que é uma cidade que eu tinha um sonho em conhecer.

Depois de já quase a completar 8 anos no Nepal, estávamos muito cansados, sentíamos que precisávamos sair um pouco, para renovar nossas forças. As idas ao Brasil eram sempre cansativas, pois não eram férias e sim viagens para apresentar nossos projetos e renovar parcerias. Estávamos orando por um ano sabático, mas tinha que ser em algum lugar que não iria comprometer os estudos de nossos filhos, pois eles estudavam na língua inglesa e as escolas iniciavam sempre em meses diferentes do Brasil, então se fossemos ao Brasil seriam dois problemas, a escola deles já teria começado a meses, e ainda eles não saberiam estudar na língua portuguesa, e não compensava o esforço de se adaptar pois era apenas um ano sabático. Então começamos a orar pedindo a Deus um local, e através de um sonho senti que este local era o Camboja. Entramos em contato com a Jocum de lá e eles ficaram de nos receber, isso foi em junho de 2014, fomos pra lá com a intenção de ficar um ano, entregamos a liderança da New Life House ao casal de obreiros que trabalhava conosco e fomos. Logo que chegamos ao Camboja uma “tempestade” nos atingiu: o dólar quase que dobrou o que fez com que nosso sustento diminuísse quase pela metade, e a igreja que nos sustentava com os 500 dólares e sustentava o projeto com mais 500 nos comunicou que iria cortar nosso sustento e o do projeto porque os irmãos não entendiam a nossa ida ao Camboja, ficamos arrasados. Entrei em contato com o casal de obreiros e anunciei a eles que a New Life House não tinha mais sustento e por isso teriam que parar o trabalho. Disse a eles que procurassem um local para ficarem, ou iriam para a base da Jocum, e eu pagaria com meu dinheiro o aluguel da New Life House até eles acharem um lugar para irem, pois sabia que eles precisariam de um tempo para decidirem e arrumarem um local. Perder o sustento e ainda ter que pagar um aluguel de 300 dólares foi muito difícil para nós, fomos obrigados a cortar despesas, de início cortamos o nosso INSS, e depois de um tempo, tivemos que cortar o nosso seguro de saúde que era obrigatório para a base nos receber no Camboja, mas não tínhamos o que fazer.

Nosso obreiro da New Life House me escreveu depois de um tempo perguntando se eu continuaria a pagar o aluguel se ele continuasse com o trabalho. Ele resolveu não fechar o ministério, mas mudá-lo. Em vez de receber mulheres de rua, que como costume, ficavam 6 meses morando na casa, até aprenderem corte e costura e depois arrumarem empregos, ele decidiu oferecer esse projeto para mulheres da vizinhança. Eu concordei, pois era uma forma de levar o Evangelho a vizinhança também. Apesar de ser um país fechado, nós sempre compartilhamos o Evangelho na New Life House e graças a Deus nunca fomos denunciados. Já imaginava o quanto seria difícil para nós mantermos o projeto sem mantenedores, pois o que vinha para nós, tínhamos que enviar parte para o Nepal.

No Camboja tínhamos que renovar os vistos todos os meses, e isso implicava despesas, tínhamos que sair do Camboja, ir até a fronteira da Tailandia, entrar na Tailandia e voltar para o Camboja com um novo visto, a única forma de conseguir um visto mais longo seria atraves da missão, mas para isso teríamos que fazer um compromisso de dois anos, pois eles não davam visto para quem iria ficar menos tempo. Como não tínhamos sustento suficiente para tantas viagens e tantos gastos, fizemos esse compromisso de 2 anos. Ficamos lá servindo em duas áreas, Carlos dava aula de inglês no centro de treinamento da missão para a comunidade de segunda a sexta, e aos domingos tinha um culto de manhã onde as pessoas que frequentavam essas aulas eram convidadas a vir, era um trabalho da Jocum muito lindo que alcançou muitas pessoas. Eu me ofereci para ir para as vilas ensinar trabalhos manuais, uma forma de auxiliar o trabalho que já existia lá, e um outro que estava começando. Eu costumava ir para essas duas vilas que ficavam em distritos diferente. Uma delas eu pedalava uma hora e meia para chegar.  O calor do Camboja era muito forte e eu colocava uma garrafa de Coca Cola de 2 litros cheia de água no refrigerador e no outro dia antes de ir para a vila, eu colocava no cesto da minha bicicleta, era a forma de aguentar o calor e ter água gelada comigo o tempo todo. O gelo ia derretendo e eu tomando. 

Não era fácil morar nessa cidade chamada Siem Reap, muito calor, suávamos o tempo todo, se não estivéssemos debaixo de um ventilador, estávamos suando. Carlos pedalava 30 minutos até o centro de treinamento, chegava lá e tinha que se sentar debaixo de um ventilador por 30 minutos até parar de suar e só aí trocar de roupa pra dar aula. Quando íamos para a igreja, íamos para a igreja internacional para que nossos filhos pudessem entender as mensagens. Chegando lá de bicicleta eu me sentia “molambenta”. Todo mundo arrumadinho, com maquiagem, chegando de carros e nós todos suando e nada parava no rosto, nem protetor solar. Eu ficava chateada e disse ao Carlos que pelo menos para ir à igreja, iríamos pagar um tuc tuc, para que não chegássemos lá “molambentos”.

Em Siem Reap era obrigatório ter o próprio veículo ou meio de condução, pois não existe transporte público e saia caro andar de tuc tuc pra lá e pra cá. Nós só tínhamos condições de comprar as bicicletas, compramos 3 usadas, uma para Carlos, uma para mim e uma para Emanuele, Yoseph ia na cadeirinha. Eu me sentia chateada as vezes, quando pedalava uma hora e meia até a vila e via os missionários que lá moravam indo pra lá e pra cá de carro, parecia tão fácil ser missionários assim, vinha na minha cabeça. (Sei que não é fácil o ministério, mas ter um carro facilitaria um pouco mais) eu tinha que cuidar muito do meu coração diante de todas as provações que passamos lá.

Um dia pedalando fui atropelada por uma moto. A moto bateu na minha bicicleta e me jogou de joelhos e braços no asfalto cheio de pedrinhas. A moça que me atropelou, nem se quer me ajudou, ficou a conversar com um motorista de tuc tuc que estava ali, acredito eu que estavam a discutir o que fazer. Se me ajudasse, talvez temesse que eu a fosse obrigar a pagar pelo tratamento dos meus machucados, pois ali no Camboja não tinha nada de graça.

Eu vi que não iria ter ajuda e com muita dificuldade me levantei e peguei minha bicicleta e fui mancando e chorando de dor, empurrando minha bicicleta de volta pra casa. Não fui a nenhuma clínica para limpar o local e nem fazer curativo pois não tínhamos condições de pagar, A ferida foi profunda chegando nos ossos, e eu fiquei sem movimentar minha perna por 15 dias. Eu me levantava e andava sem dobrar o joelho, toda vez que tentava dobrar, ameaçava de rasgar o que já estava cicatrizando e doía, então eu não podia dobrar o joelho. Fiquei 15 dias assim. Passado 15 dia, eu pensei, já faz muito tempo sem ir a vila, então pedi para avisarem que eu iria na quarta-feira. Chegando na quarta feira, peguei minha bicicleta e ao dar a primeira pedalava, uma dor muito forte, a ferida rasgou e começou a sair sangue, pois estava um pouco infeccionada devido a não ter feito uma boa limpeza no local. Eu nunca consegui fazer, porque doía muito. Mas agora que já estava rasgada, eu não iria desistir, comecei a pedalar até a vila, cada pedalada era um gemido e eu comecei a chorar e a pensar; se eu tivesse pelo menos uma moto eu não precisaria passar por isso, todos os missionários que vão as vilas têm pelo menos uma moto e eu não. Assim que me vi pensando assim, vi que estava com autocomiseração, isso é um perigo, pois estes sentimentos acabam por tomar conta de nós e gerar amargura e nos afastar de Deus. Comecei a tentar mudar meus pensamentos e um versículo me veio à mente Coríntios 13;3b que diz “...ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. “Naquela hora percebi que tanto sacrifício nada aproveitaria para o Reino de Deus se eu não amasse aquele povo e a pergunta era: Será que eu amo suficiente este povo, ou faço o que faço somente porque faz parte do meu ministério? Naquela hora eu comecei a pedir a Deus que me ajudasse a amar aquele povo.

Eu acredito que Deus muda as situações, quando agimos de forma contraria ao nos depararmos com coisas e pensamentos que não glorificam a Deus,  pensamentos que geram amarguras ou atitudes que não glorificam a Deus. Naquele momento quando recusei os pensamentos de autocomiseração, eu acredito que foi o motivo Deus mudou minha sorte. Algum tempo depois um pastor entrou em contato e perguntou ao Carlos se estávamos precisando de alguma coisa. Esse tipo de pergunta geralmente não acontece, e vimos que foi Deus usando-o. Carlos disse que eu precisava de uma moto para ir as vilas, esse pastor então conversou acredito eu com um empresário e este doou o valor total para a compra da moto.

A moto não serviu somente para eu ir as vilas, mas também para levar as crianças para a escola, pois no Camboja pode se levar quantas pessoas couberem na moto.

Enfim, um pouco de alívio em um lugar tão difícil. Existem muitos lugares lindos para ir naquela região para passear e levar a família para descontrair em um dia de folga, mas todas faz parte de um grande complexo de Angkor, um sítio arqueológico de 400 km. Um cambojano pode entrar sem pagar, fazer piqueniques etc., mas um estrangeiro na época, mesmo morando lá, tinha que pagar 20 dólares cada um para entrar (hoje são mais de 30), nós éramos em 4 então não dava pra passear em algum lugar bonito ali.

Enfim nossos 2 anos acabaram e não tínhamos certeza se deveríamos voltar para o Nepal, uma vez que mesmo sem mantenedores nosso casal de obreiros cuidou muito bem do ministério, eles não precisavam de mim. Disse ao Carlos, vamos para o Brasil, mas vamos passar 3 meses no Nepal primeiro, pois se não formos voltar ao Nepal, pelo menos esses 3 meses servirá para nós despedimos. Eu sentia que meu tempo tinha acabado no Nepal, mas ao chegar lá, nosso líder fez um convite ao Carlos, para ele participar do ministério de levar seminários a líderes de igrejas nepaleses em todo o Nepal. Era uma pareceria de 3 organizações missionárias. Carlos ama essa área de treinamento e aceitou, então a ideia era voltar ao Brasil para renovar parcerias e voltar ao Nepal depois. Ficamos no Brasil 2 ou 3 meses e voltamos ao Nepal. Carlos fazia viagens e eu ficava com as crianças, nosso líder me pediu para auxiliar um ministério que tinha uma casa que cuidava de crianças, pois eles estavam para perder mantenedores por não enviar as notícias de uma forma que agradassem os mantenedores. Eles mais colocavam fotos, sem dar muita informação, então meu trabalho era, sentar com eles, ver tudo que tinha acontecido na casa aquele mês, escrever no papel e depois juntas notícias com fotos. Também auxiliar a New Life House com as notícias, pois cada casa ministerial também deveria informar a base sobre os acontecimentos e nosso obreiro só não estava conseguindo fazer isso, mas ele gerenciou de uma forma muito boa o ministério mesmo sem dinheiro.

Ficamos no Nepal 1 ano e meio, a ideia era ficar 3 anos direto, mas algo não estava certo, começamos a sentir muita pressão. Cada vez que tínhamos que renovar os vistos, além disso Yoseph já iria completar 10 anos e começaria a pagar os vistos o que não tínhamos condições. As perseguições no Nepal começaram a se intensificar, e alguns cristão começaram a ser presos, sentíamos muita pressão e um sentimento de que deveríamos sair, eu também estava muito cansada da vida de missões, desde que o dólar subiu, tudo tinha ficado mais difícil para nós e eu estava muito cansada, eu queria ter uma vida normal, trabalhar e ter um salario certo no final do mês, foi ai que disse ao Carlos que queria ir embora, e me precipitei, escrevi para todos os nossos mantenedores, avisando que iriamos voltar para o Brasil e só pedimos que continuassem a nos apoiar por pelo menos 3 meses até conseguirmos um emprego e lugar para morar. Depois de já ter enviado todos os e-mails um versículo me veio a mente, "Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus". Lucas 6:92. Foi aí que percebi que o chamdo para missoes não e um trabalho como um emprego que começo e paro a hora que quero, o chamado para missoes é um ministério dado por Deus e eu não posso olhar para tras. Começamos a orar perguntando a Deus o que fazer, eu tinha certeza que meu ministério ali tinha acabado, mas para onde deveríamos ir: A ideia de ir para um outro pais, onde teria uma outra língua me deixava muito cansada so de pensar. Oravamos e parecia que o ceu estava fechado, não tínhamos resposta. Já estávamos nos desfazendo de nossas coias para voltar para o Brasil, quando uma irma da Afirca do Sul que nem deveria estar em Kathmandu nos ligou perguntando se poderia ir a nossa casa, ao chegar la ela me trouxe flores e disse que sentiu de Deus que deveria fazer isso e me deu um versículo de Salmo 126:6 Aquele que sai chorando enquanto lança a semente, voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes.

Eu estava muito triste, porque eu tinha entregado de vez a New Life House, apesar de não estar liderando, eu pagava o aluguel, mas já não tinha mais como pagar quando uma mulher americana que estava interessada na casa para acolher mulheres resgatadas da Índia me ofereceu de ficar com o projeto e ela pagaria tudo, aí já não seria mais um projeto meu. Eu estava arrasada, mas aquele versículo me confortou.  Essa irmã da África do Sul então nos disse que sentia também que nosso mistério no Nepal tinha acabado, mas não nosso chamado, e sentia que Deus nos levaria para outro lugar. Nós sentíamos isso também, mas não sabíamos onde. Carlos então viajou na frente com as crianças e eu fiquei cuidando de algumas coisas, entregamos a casa e me hospedei na Guest House da Jocum e depois fui para a casa de um casal amigos nosso. Nessa casa nosso amigo me falou que uma pastora o convidou para ir para Portugal pois segundo ela, existiam cerca de 20.000 nepaleses aqui em Portugal (hoje já se fala em 50.000). Quando ele falou isso, eu percebi que o local que deveríamos ir era para Portugal, pois senti paz imediatamente. Era um país onde eu não teria problema com uma nova língua.

Chegamos ao Brasil e oramos juntos e colocamos diante de Deus. Eu tinha muito medo de todo esse problema com finanças e por isso não queria arriscar, falei para o Carlos que a primeira pessoa que iriamos comunicar era a nossa maior mantenedora, ela e o marido eram nossos maiores mantenedores e se eles parassem não teríamos como sobreviver em Portugal. Então dependendo da resposta deles é que iriamos prosseguir com o plano de nos mudar para Portugal ou não. Se eles falassem que continuariam, então iriamos fazer a mesma pergunta aos outros mantenedores, se eles falassem que iriam parar, aí já desistiríamos. Colocamos isso diante de Deus.

Ao enviar Email para essa mantenedora, contamos sobre nossos planos e fomos diretos, perguntamos se ela iria continuar a nos manter. Ela enviou um outro Email fazendo perguntas, sem responder nossa pergunta, mas da forma que ela falou acreditamos que era uma forma positiva então acreditamos realmente que ela iria continuar a nos manter e por isso começamos a escrever para os outros mantenedores. Quase todos foram bem positivos, 2 apenas disseram que iriam parar, mas não era por causa da nossa mudança a Portugal e sim por problemas financeiros.

Depois com todos já respondidos, a irmã que era nossa maior mantenedora nos escreveu dizendo que iria parar pois eles preferiam investir em projetos na Ásia. Eu percebi o cuidado de Deus. Se ela tivesse respondido logo que perguntamos, nós não prosseguiríamos com o plano de vir para Portugal. Carlos então conseguiu com algumas pessoas o valor para repor o que a irmã nos enviava.

Continua...

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